Ana Lúcia tinha um ano e era um bebê comum, assim como todos os outros bebês. Pequeno, fofo, com aqueles dedinhos e aqueles pezinhos que dão vontade de morder e exalando Johnson & Johnson.
Por pouco, por muito pouco a pequena não acabara se chamando ‘Guadalupe’ como queria seu avô que era mexicano patriota fervoroso e isso só não aconteceu graças à intervenção de sua avó que também era mexicana, também era fervorosa, mas achava o fim do mundo que sua neta já nascesse condenada ao estereótipo internacional. Um português não era seria menos português se deixasse de se chamar Manuel ou Joaquim, certo? E foi assim e por isso que 'Ana Lúcia' acabara sendo: “Ana Lúcia”.
Ana Lúcia tinha sete anos e era uma criança que já apresentava nuances de uma personalidade idiossincrática. Gostava de brincar de esconde-esconde, de amarelinha, de pega-pega, de pega-bandeira... Ou seja, de qualquer coisa que envolvesse correr e pular simultaneamente – aleatoriamente – necessariamente! Mas sem mais nem menos ficava a tarde toda parada, hipnotizada, cercada e entregue a mercê de livrinhos pra colorir, gibis já coloridos e livros sem cor nenhuma, apenas letras.
Assistia desenhos animados para crianças, seriados adolescentes e também filmes de adultos que via escondido de madrugada com a televisão ligada no mute.
Uma de suas comidas favoritas era sanduíche de mortadela com suco de laranja, contanto que sua mãe tirasse as bolinhas brancas de gordura da mortadela, pois tinha um nojo absurdo delas e o suco de laranja tinha que ser devidamente coado, porque os gominhos da laranja arranhavam sua garganta, o que ela detestava. Café com leite também coado. Tinha repulsa a nata e as bolinhas que formavam do leite em pó ficavam boiando inchadas impedindo que o líquido fluísse mais facilmente.
Mas é costume do tempo passar e ele passou.
Tinha sido abandonada pelo pai aos nove anos. Sua última lembrança dessa pessoa era a dele entrando em um fusca vermelho fedido a cigarro com uma malinha, lhe sorrir e acenar de dentro do carro e dando uma ré da sua vida pra nunca mais voltar.
Ana Lúcia tinha onze anos e era ainda uma menina, mas sabia o significado e o preço de ser disso de ser idiossincrática.
“Idiossincrasia: Maneira particular que cada um tem de ver sentir e reagir perante aos fatos comuns a todos ou não.”
Foi nessa época que descobriu que não recebera da avó apenas o nome, mas também o gênio! Um gênio com resquícios de tequila mexicana.
Seus treze anos vieram pra torná-la volúvel e de uma imprevisibilidade pragmática paradoxal, assim como somos todos nós aos treze anos, essa época de nossas vidas em que tudo é tão extremo e tá só começando! E ela nada podia fazer.
Ana Lúcia não gostava e nem desgostava de alguém ou alguma coisa. Ana Lúcia AMAVA ou ODIAVA alguém ou alguma coisa.
Aos quinze anos, uma das suas maiores descobertas, ao contrario de qualquer outro adolescente normal nessa idade não foi nem a maconha, nem a bebida e nem o sexo, e sim os livros! Abraçou o habito de ler com unhas, dentes e pélvis, mas ler livros interessantes, não essas baboseiras que as pessoas acham interessante achar interessante ou pior, as coisas desinteressantes que faziam as pessoas se sentirem culpadas por as acharem desinteressantes. Como as que mandavam ler no colégio... Puta que pariu!
“O ATENEU? EU VOU TER QUE LER O ATENEU?!” (Joga o livro no chão do banheiro do colégio e começa a pisar)
Nada contra os clássicos, mas ler uma coisa que você precisa parar a cada quinze segundos pra procurar um significado no dicionário ao lado é como tentar meditar com o dedo enfiado no cu, ou assistir um filme de uma hora e meia de duração com oitenta e sete comerciais fatiando ele. Mais irrita do que diverte. Quando vão entender que Machado de Assis é como se fosse um chefão de fim de fase do vídeo game? Você precisa suar, ralar, estar pronto pra encará-lo. É necessário merecer compreendê-lo e sair transformado desse encontro, se não, é dar pérolas aos porcos. É falar de física gravitacional com esquilos. Você põe o mais foda logo de cara, assusta e desestimula.
Ana Lúcia amava Mário Quintana, Fernando Sabino, Luís Fernando Veríssimo, José Saramago e um inglês chamado Sherlock Holmes.
Era dona de um senso de humor bastante irônico e isso se refletia em sua escrita. Como da vez em que surpreendeu quarenta e cinco pessoas, entre elas, colegas de classe, pais e professores, ao ler em voz alta o poema que fizera para seu pai em homenagem ao dia dos pais. Para o mesmo pai que a abandonou quando era criança.
“Só queria dizer
o quanto eu não preciso de você.
Você é como um cavalo campeão de corridas
Que quebrou a perna antes mesmo da saída.
Tinha tudo pra ser tudo e acabou não sendo nada.
Sinto sua falta tanto quanto do carro importado que eu nunca tive
ou de uma cabra.”
Era movida a música e escutava de quase tudo. Conseguia ir de “Iron Maiden” á “Alcione” No mesmo quarto de hora, no mesmo quarto de dormir. Escrevia blues e não os musicava. Inventava jingles e não dizia a ninguém.
Assim como somos todos nós aos quinze anos, Ana Lúcia estava sempre apaixonada por alguém ou por alguma coisa. Ou por um pensamento que leu não sabia aonde, ou por um novo sabor de chocolate, por um galã de cinema ou por um carinha da escola!
E o tempo passando. E o tempo assando.
Ana Lúcia tinha dezessete anos e era uma moça que estava apaixonada de verdade pela primeira vez. O mal que todos nós somos acometidos quando temos dezessete anos.
O ‘mal ‘em questão, já era maior de idade, trabalhava numa lanchonete, morava só e atendia pelo nome de:
“Paaaaulo!” (suspira)
E foi com esse rapaz...
“Paaaaulo!” (suspira)
... Que Ana Lúcia deu inicio a sua temporada de aprendizado.
Aprendeu o gosto do beijo, o gosto do sexo, o gosto do gesto e o gosto do desgosto. Aprendeu o significado de "muita vela pra pouco defunto". Aprendeu que ficar horas ao lado de quem se gosta simplesmente não fazendo nada é tudo! Aprendeu que o relógio não funciona sob pressão.
Aprendeu a beber, aprendeu o que beber, aprendeu que beber de mais não é bom, aprendeu a gostar, aprendeu a fingir que gostava para se entrosar, aprendeu que o ato de ‘se entrosar’ já era o maior fingimento, já que as pessoas interessantes meio que nos encontram sozinhas. Aprendeu que a vida é curta e as histórias compridas. Mas foi justamente com esse rapaz...
“Paulo”... (lamenta)
... Que Ana Lúcia aprendeu o gosto amargo e pastoso da traição.
Azar. O azar é aquele detalhezinho que ninguém dá importância, mas que faz um estrago enorme! Como um espermatozoide, só que do caos.
Naquela tarde de abril, Paulo recebeu uma saraivada de azares de Deus. Listar todos seria trabalhoso e enfadonho, mas alguns não podem deixar de ser ressaltados.
Um: Ele não foi trabalhar na segunda feira e ligou para o chefe e pra namorada dizendo que estava doente. Mas era mentira.
Dois: Ele até cogitou a existência nata do instinto materno que faz toda mulher querer cuidar de seus doentes e até pensou na ideia de Ana Lúcia passar na sua casa pra saber se o namorado estava se sentindo melhor DEPOIS da aula... E não antes.
Três: Ele havia dado a chave reserva da casa pra ela certa vez em que estava bêbado e não se lembrava.
Quatro: Ele caiu em tentação.
Cinco: A tentação estava caindo nele. De boca! Estava sendo chupado pela vizinha loirinha bonitinha no exato momento em que Ana Lúcia adentrou teatralmente o ambiente com seus livros e cadernos numa das mãos e uma sacola com aspirinas e dvds de filmes de ação na outra.
Azar, pequenas sacanagens de Deus que neste caso deixaram Paulo completamente sem escapatória.
Mais do que raiva, Ana Lúcia sentia nojo! E mais do que nojo, Ana Lúcia sentia raiva!
Viu todas as suas concepções do que era amor, do que era gostar, do que era confiança, do que era lealdade indo fossa à dentro e ladeira a baixo.
Como a temporada de aprendizado tem hora pra começar, mas não pra terminar (porque morte não é fim, mas também é lição) o que Ana Lúcia mais aprendeu foram as coisas que ninguém a ensinou. Coisas que a própria Ana Lúcia teve que se ensinar, como por exemplo, a cair e sobretudo a se levantar porque de onde veio essa viriam outras mais e o truque era exatamente esse: Não evitar que coisas ruins aconteçam, porque além de ingênuo é idiota. Tinha mais era que aprender a desviar de flechas e caminhar sobre o braseiro e beber água mesmo quando não estivesse com sede, por precaução.
E o tempo mais uma vez corroendo a vida de Ana Lúcia.
Aos vinte e um ainda estava na fase dos vinte e poucos. Aos vinte e três estava na paranoia de que tinha quase vinte e cinco, espírito fazendo bodas de prata.
Aos vinte e sete era enfim mulher e percebeu que seus "vinte e sete" eram os "vinte e cinco" da melhor amiga, os dezenove da colega de trabalho que era muito madura para a própria idade e na sua condição de pessoa ímpar foi desmistificando essa máxima de que números são ciência exata. A paciência não é uma ciência exata. O empirismo é forte, mas não é onipotente.